Cair na realidade.

A inocência de viver as coisas como se elas mais tarde não tivessem peso na nossa consciência, em cada passo que damos, a cada decisão que temos de tomar...
O futuro está longe, não há razões para me preocupar - Pensava eu constantemente. 
Algo estava errado. Algo fazia com que eu não fosse eu... 
Escolhi métodos fáceis para conquistar fosse o que fosse. Deixei-me consumir pela minha própria ilusão. Vivia numa mentira que eu própria criei. 
Fingia que era feliz, fingia que estava tudo bem. 
Na minha cabeça eu vivia num corpo que não era meu, vivia uma vida que não correspondia à que eu idealizava. 
Vivi complexada. Tinha medo dos espelhos, porque eles mostravam-me uma realidade crua. Eu recusava-me a ver o que eu mais queria esconder - Afinal, eu era aquela pessoa. 
Começaram os ataques de ansiedade e o medo. 
Pronto.
Entrei num ponto sem retorno. A partir daqui é viver a vida com medo que descubram a minha realidade. - Pensava eu... novamente. 
Caí na minha própria ratoeira, fui a minha própria vitima. 
Não existia amor próprio, quanto mais amor ao próximo... 
Havia alturas em que me questionava: Porquê eu? 
Os ataques de ansiedade tornaram-se parte do dia-a-dia. Era um novo hóspede. 
Nunca esperei a compreensão de ninguém. Nunca esperei que mais tarde fosse perdoada pelas minhas escolhas pouco inteligentes. - As escolhas de alguém que não estava bem.
A pessoa em quem mais confiava, a pessoa que eu considerava o meu pilar, deixou de me ajudar. Desistiu. Era a minha melhor amiga. - Pensava eu que era. Afinal, não estava lá para tudo, como era suposto. Se calhar esteve e eu não vi. Estava demasiado ocupada com um eu que não existia. Não a vou culpar. Não somos obrigados a estender a mão, quando não faz sentido. 
Bem...  A partir daqui é sempre a descer, não é? 
A máscara caiu.  Agora resto só eu e a verdade que eu escondia.
Tive saudades das pessoas que magoei, queria ter ganho a coragem de lhes explicar. 
Ansiedade, solidão, silêncio... Durante semanas. 
A partir daqui era escolher: Ou vivia como um vegetal ou começava a aprender a fazer tudo de novo. 
Foi como deixar de andar... Tinha de dar um passo de cada vez, sabendo que os primeiros nunca iam ser certos.  
Pedi ajuda. Desta vez não foi a nenhum amigo que fingia estar presente mas que só passava a mão pelo ombro a dizer que tudo iria ficar bem. Tudo o quê? - Pensava eu. 
Procurei ajuda sozinha. Primeiro o psicólogo, depois o psiquiatra. Não esperei que esta bola de neve gigante um dia caísse sobre mim e acabasse com a minha vida. 
Tudo isto porque vivia complexada com o corpo que eu tinha. Vivi tudo isto, pelo simples facto de não gostar de mim. 
Existe tratamento para isso? Existe. 
Comecei a lidar com o que eu mais evitava: Os espelhos. Comecei a observar-me. 
Como é que um corpo consegue dominar a nossa mente ao ponto de nos tornar doentes por algo que não existe e faz-nos recorrer a métodos fáceis e pouco ortodoxos? 
Foram dois longos anos a aprender a caminhar novamente... 
Limpei as lágrimas e prometi a mim mesma que nunca mais me iria deixar derrubar ou que me derrubassem. 
Comecei a pratica desporto, comecei a ler sobre alimentação saudável, comecei a trabalhar, a conhecer pessoas novas. E o mais importante: Comecei a respirar.
Comecei a conquistar aquilo eu nunca tinha conquistado. 
Como é que foi possível? Aprendi a gostar de mim, do meu corpo e hoje adoro tudo o que vejo.
Cliché? Talvez. Nas mentes vazias tudo soa a cliché. 
Para mim soa a novas oportunidades. 
Comecei a viajar sozinha e a adorar a minha própria companhia. 
E hoje eu respiro de alivio... Hoje eu sou grata a mim mesma. 
Nada me tira a motivação que eu ganhei, nada me tira a coragem de partilhar a minha pequena vitória. 
Não quero de volta nada daquele passado. Mas não o esqueço. 
A estupidez de viver o presente a achar que o passado não existiu, faz com que o futuro seja irrelevante. 

Decidi partilhar, ainda que seja da minha vida privada, porque sei que existe muita gente que infelizmente passa pelo mesmo ou por algo semelhante. E eu quero deixar bem explicito e vincado: Há solução. 

Tu não és inferior por pedires ajuda. Muito pelo contrário. 
As segundas oportunidades existem. Eu dei-me a mim própria e não podia viver mais feliz com isso.